[Por Maria Nunes]
Eu gosto do que não existe.
Como eu queria ganhar dinheiro dormindo e ficar de bobeira a vida toda. Como eu queria ficar com 20 anos o resto da vida. Nascer sabendo de tudo, não precisar trabalhar nem estudar. Queria que meus pais e minha irmã nunca tivessem de morrer. Nem meus avós. Queria ter vivos todos os cães que já passaram lá por casa. Queria de volta muitas amizades. Queria ter perto, bem perto de mim, todas as pessoas que quero bem. Queria poder transformar em fotos todos os bons momentos que guardo só na lembrança. Queria é ter a certeza do que vem depois. Queria que a certeza tomasse o lugar da dúvida, e que com isso minha cabeça sossegasse.
Realmente, eu gosto do que não existe.
Mas ainda bem que as coisas não são assim (“ainda bem” em termos). Se ficar de bobeira por uma tarde me deixa nervosa, o que direi de uma vida inteira? De que me adianta ter 20 anos a vida inteira, e não aproveitá-los como se tivesse, realmente, 20 anos? Nascer sabendo de tudo não é vantagem. Cabeça ocupada com estudo ou trabalho é muito mais produtiva e não fica pensando em coisa que não deve. Se as pessoas queridas não morressem, jamais saberíamos o quanto elas realmente significam para nós. Se todos os meus cães fossem vivos...bem...talvez se os dois primeiros fossem vivos, não teríamos os sete seguintes. Amizade que acaba, na verdade, não era amizade. E sendo assim, é melhor que acabe. “Se não for pra ser feliz é melhor largar”! Faltar-me-ia tempo para dar atenção a todos que quero bem. Apesar de muitos nem terem esse conhecimento, é muita gente que estimo. Correria um risco se tirasse da memória e passasse para fotos todos os bons momentos, com pessoas legais, pelos quais já passei. As fotos estragam, desbotam, rasgam. São coisas passiveis de perda. E seriam grandes perdas. Prefiro não ter a certeza do depois, prefiro que a certeza não tome o lugar da dúvida (em alguns casos.). Embora já nasçamos com a única certeza da vida: a morte. Mas isso é detalhe. Afinal, é a dúvida que nos move, nos faz acreditar que somos capazes de dar um “fim” diferente para as coisas, e conseguir fazer dar certo!
Mas se o que tivéssemos fosse paz, e não tédio, se soubéssemos aproveitar, que fossem, 100 anos de vida, se tivéssemos tempo para dar atenção a todos, se tantas pulgas não fossem impedimento para tantos cães. Se amizades não terminassem, se as fotos não rasgassem e as memórias não se perdessem, se a certeza do depois fosse sempre boa, bem, daí então tudo seria diferente!
E sendo assim, eu não gostaria do que não existe!
[Postado originalmente aqui]
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
O que não existe
Postado por Ana Maria às 11:06